Juramento do Jornalista

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Mate de Comadre em Cuia de Porcelana

No último dia da 56ª Feira do Livro de Porto Alegre - 15 de novembro, acontece o evento "Mate de Comadre em Cuia de Porcelana", às 18h30, no Deck dos Autógrafos, no Cais do Porto. Nele, o Patrono Paixão Côrtes falará sobre a tradição gauchesca de tomar o mate doce em cuia de porcelana. O público está convidado a participar e levar seu mate para a roda.
MATE DE COMADRE EM CUIA DE PORCELANA
Texto de: João Carlos D´Ávila Paixão Cortês

MATE DOCE:
Em nosso livro “O Gaúcho – Danças, Trajes e Artesanato”, publicado em 1978, nos atendo às peças artesanais usado no meio social rural gauchesco de outrora, (fins do século XIX primórdios de XX) referentes a certos tipos de cabaça na qual nossas prendas e avoengas serviam uma infusão de “ilex paraguaiense” com água quente, através de uma bomba típica (canudo) de metal, semelhantemente ao mate paraguaio, porém este servido com água fria e denominado de terêrê.

Da nossa matéria editada extraímos o seguinte texto:
“A porcelana ligada à tradição gauchesca tem nas cuias para mate doce, tão ao gosto das mulheres, as peças mais representativas. Assim como muitos objetos de metal dos campeiros e peças de uso pessoal (ponchos, palas), as cuias de porcelana eram produções européias que vinham destinadas aos mercados consumidores das áreas sul-rio-grandenses, argentina e uruguaia, da mesma forma como acontecia com relação aos tecidos dos mais diversos. Isto ocorria em decorrência da estrutura comercial existente anteriormente, nos países sul-americanos e em razão de ausência do espírito industrial fabril de nossa gente nos primórdios de sua formação sócio-cultural, como já fizemos referência ao longo desta obra.
Estas peças, as cuias de porcelana, que hoje ocupam prateleiras de colecionadores e vitrinas de museus, variam de formas e tamanho, embora não excedam a dezessete centímetros de comprimento, com uma capacidade de 80 gramas para erva e com uma boca em forma de três centímetros de diâmetro.
As mais singelas eram estreitas (na sua largura) e com uma alça lembrando uma pequena xícara. As mais requintadas apresentavam um pé torneado e um elemento figurativo mitológico como, por exemplo, um anjo de asas semi-abertas ou então outros símbolos artísticos, geralmente humanos, sustentando o bojo do recipiente, destinado a receber a erva-mate. Aliás, frequentemente, este adorno continha flores em alto relevo, delicadas grinaldas, bordos dourados, etc. Em diversas cuias de porcelana liam-se inscrições como: amizade, saúde, amor, felicidade, etc. que pela sua grafia nos leva a acreditar serem, predominantemente outrora fabricadas na França.
Afora estas cuias antigas, de maior significado utilitário e decorativo, a porcelana atual fabricada no Rio Grande do Sul, com fins mais diversificados, resulta de uma mistura de quartzo de feldspato, barro e energia. Da pasta à modelagem, do cozimento à função dos objetos, do emprego de tintas à terminação, ela está fundamentada na cultura teuto-rio-grandense atual, sem maior vínculo estético, ou artístico à arte folclórica gauchesca propriamente dita”.
Para tais cuias pretéritas, exigiam-se bombas relativamente pequenas, proporcionais à peça com chupeta de ouro, lisas, com discretos anéis ou torneadas, na extensão da própria prata ou metal branco. Nas mais requintadas, via-se ao longo do comprimento ajustado à haste da própria bomba figuras de flores, pássaros fixos ao comprido ou inclusive as iniciais da dona da casa, próprio ao manuseio delicado dos dedos femininos.
Sabe-se também pela orabilidade que o mate traduzia simbolicamente uma mensagem poética muda e por vezes amorosa relacionada ao namoro entre os jovens solteiros ou mesmo na roda das comadres no horário da meia-tarde em diante. Alguns mates se faziam acompanhar de jujos, isto é, ervas medicinais.

Assim falavam provincianas do Rio Grande:
Mate com mel – “quero casar contigo”
Mate com açúcar queimado – simpatia
Mate com canela – “só penso em ti”
Mate com açúcar – amizade
Mate frio – desprezo
Mate com sal – “não apareças mais aqui”
Mate com cascas de laranja – “vem buscar-me!”
Mate muito amargo – “chegaste tarde, já tenho um amor”
Mate lavado – “vá tomar mate noutra casa!”
Mate servido com água quente pela bomba – “Desapareça da minha frente”
Mate com leite ou funcho – para amamentar
Mate com marcela – colhida na sexta-feira santa antes do alvorecer é mate santificado, bom para tudo
Mate com quebra-pedra – é bom para as urinas
Mas o mate poderia proporcionar um momento desastroso a um afoito gaúcho conquistador, se o pai da nossa cortejada, considerasse o ato, “um namoro contrariado dos antigamente”.
Assim, o “taita” com habilidade e sutileza botava no mate do pretendido à mão se sua filha, uma folhinha de umbu.
É disenteria imediata!
O gaúcho, então garboso, deixava um rastro ridículo rumo ao mato...
Fonte:Imprensa Feira do Livro

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